[ Resenha ] Voyeurismo na terra de Godzilla

“O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, J. P. Cuenca, Companhia das Letras, 2010.

Nada é convencional em “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, livro lançado pela Companhia das Letras ano passado, terceiro romance de João Paulo Cuenca, autor de uma nova geração de escritores que começou a aparecer nos anos 2000.

Por um lado, isso é bom: o leitor sempre espera encontrar alguma novidade nas páginas seguintes, na maioria das vezes algo inusitado. Por outro, a impressão que se dá é que o livro fala para um único público, para uma única época, uma juventude que cresceu assistindo desenhos japoneses e que vai se divertir com Tóquio ou com a boneca com inteligência artificial. Ou seja, um livro datado, geracional, o que nem sempre é positivo, apesar de ter o seu valor.

O romance tem uma estrutura episódica, sem uma linha temporal muito bem definida. Frases e situações se repetem, dando um caráter cíclico à narrativa, mas sem tornar o texto repetitivo. O autor cria uma espécie de um realismo fantástico, de um Borges em que as bibliotecas e labirintos são substituídos pela cultura pop japonesa.

O livro nos apresenta uma “história de amor” totalmente ambientada em Tóquio. O personagem principal, Shunsuke Okuda, apaixona-se por uma estrangeira de nome impronunciável em japonês, Iulana Romiszowska. Dizer que se trata de uma história de amor talvez seja forçar a barra – está mais para uma obsessão.

O antagonista é o pai de Shunsuke, o poeta Atsuo Okuda, dono de um gigantesco esquema de grampos telefônicos e câmeras, espalhados por toda a Tóquio, para vigiar quem achar que deve. Além disso, vive recluso com a boneca Yoshiko, dotada de inteligência artificial, que inclusive torna-se narradora em alguns capítulos.

O aparato de espionagem do sr. Okuda vai resultar em uma narração em primeira pessoa e ao mesmo tempo onipresente. O narrador Shunsuke sabe tudo o que acontece, pois ele pode assistir às gravações da vida de qualquer um, inclusive a sua própria, talvez esse o ato de voyeurismo supremo.

CuencaCuenca

“O único final feliz…” parece ser produto direto da forte presença da cultura pop japonesa no Brasil (sim, o livro é brasileiro. A única menção à cultura brasileira, entretanto, é a uma música de João Gilberto). Ao transformar todo esse caldeirão cultural em livro, Cuenca de certa forma faz algo parecido com o que a banda The Flaming Lips fez ao lançar o álbum “Yoshimi Battles the Pink Robots”. Aliás, ler o livro de Cuenca ouvindo esse disco deve ser uma experiência curiosa.

Mas toda essa overdose não deve afugentar leitores desacostumados com o pop japonês. O livro consegue tratar de temas universais, como amor e sexo ou o conflito entre pai e filho, além de fazer interessantes leituras filosóficas a partir do ponto de vista da boneca Yoshiko.

E, é claro, tem o acidente. Um acidente que se faz presente na narrativa o tempo todo, se anunciando, afinal é o único final feliz para uma história de amor. A dúvida do leitor é como será esse acidente: um terremoto, um trem-bala desgovernado, ou quem sabe a destruição de Tóquio por uma lagosta gigante aumentada 70 vezes pelo monstro Gyodai, o aumentador de monstros do império interplanetário Daiseidan Gozuma?

Bruno Calixto

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