[ Resenha ] Nas telas, o segredo das letras

Depois de bons meses lendo resenhas, ouvindo cochichos cinéfilos que dizem em prece: “é o novo filme do Coppola”, finalmente chega a sua hora de engolir aquele mundo de ideias e surpresas (quem pode adivinhar os temas do genial diretor?). Pois bem. A minha reza ao gênio do cinema não estava na telona, em “Tetro”.

A intenção aqui não é destrinchar e analisar o filme. Rapidamente, o que sobrou daquelas duas horas foi a lembrança de lindas imagens, mas com um exagero de referências. Coppola, em visita ao Brasil em dezembro, disse que agora tinha liberdade de fazer o que quisesse por sustentar seus filmes graças à sua vinícola. Não há qualquer dúvida disso. Se algum estúdio, produtor ou o que quer que seja o impediu de usar alguma coisa durante a carreira, tudo foi encaixado em “Tetro”. Preto e branco, colorido, dança, música, teatro, drama, comédia, família. Por esse excesso, hoje o melhor de Coppola não está atrás das câmeras ou no tapete vermelho.

Tetro

Por algum caminho que agora me foge, encontrei uma breve entrevista do diretor durante o Festival de Marrakech no site Nowness. Indico a visita, mas adianto que não há uma gota daquele mito que se criou ao redor homem que fez “Apocalypse Now” e a trilogia do “O Poderoso Chefão”.

“Qual é o seu processo criativo, Mr Coppola?”, perguntaram, ligaram a câmera e o deixaram falar. Você que escreve, que lê ou as duas coisas sinta-se honrado em saber que o mestre das câmeras tem as palavras como seu norte. “A parte mais interessante é a de escrever. O resto eu tiro de letra”, ele mesmo diz. Por “resto” entende-se a fotografia, a luz, os atores…
À você, refém das páginas em branco, Sr. Coppola tem um recado consolador: “sempre quis ser escritor, mas não tinha talento. A sorte é que, como atuar, escrever também é um processo de eterna evolução, em que você pode estudar e se aprimorar”. Alívio.

O homem não se contenta e nos dá as metáforas, as “saborosas”. “Escrever é como cozinhar uma massa. Posso usá-la para macarrão, bolo…não precisa ser uma ideia já desenvolvida, pode ser uma semente”.

O segredo da vera pasta, no entanto, é começar pelo largar de talheres: “Uma coisa que eu aprendi foi escrever antes o final, que é obviamente muito importante e precisa ter tudo”. Anotou, escritor?

Toque final: “Gosto de escrever em formato de narrativas curtas, porque nelas você pode dizer coisas que não podem ser expressas nas telas. Mostro em forma de contos mesmo para meus colegas e saímos em busca de atores e locações”.

A viagem metalingüística depois de ver essa entrevista é a graça de “Tetro” e a beleza de Coppola. Mesmo coadjuvante em todo o conflito do filme, o exercício da escrita está lá. O escritor maldito e louco está lá. A crítica, prêmios, fracasso, conflito, sucesso estão todos lá.

Sabe a cabeça do cavalo na cama do mafioso, o cheiro de napalm pela manhã? Começaram pelo mesmo caminho e desembocam no mesmo ciclo: imagens, palavras, imagens.

Juliana Simon

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