[ Resenha ] Calor e morte. Câmbio.

O bafo quente de Corumbá é a sensação mais palpável na leitura de “Ladrão de Cadáveres”, de Patrícia Melo. Não há como não se impregnar com os cheiros e texturas desenvolvidos pela autora. Sente-se calor. Câmbio. 205 páginas de um thriller telegráfico, sem aspas e sem bem, nem mal.

O protagonista, um ex-gerente de telemarketing “refugiado” no Pantanal após fracasso profissional em São Paulo, é narrador de sua nada impossível ou glamorosa história. Envolvido com a mulher do primo, namorado de uma policial e dono de um segredo, passa o livro a questionar se deveria ou não ter deixado o corpo de um jovem rico morto em um acidente de avião pelas florestas do local.

Sempre no limite da falta de escrúpulos e caráter, ao mesmo tempo em que lida com chefes do tráfico, se solidariza com uma família chantageada, uma índia mal-tratada, um outro alcoólatra e a irmã deficiente da namorada. Existe alguma alma boa na extrema humanidade dos pecados de ira, luxúria, inveja e todos mais que residem no personagem. (E além dele, convenhamos).

Ladrão de Cadáveres
Uma morte por acidente, uma sem explicação, um suicídio, uma mãe “órfã” de seu filho, a frieza de um roubo: tudo em “Ladrão de Cadáveres” remete às gavetas de um necrotério (um dos cenários mais bem descritos do livro), mesmo que esse venha em forma de metáfora, como se a pobreza, criminalidade e os desvios de conduta pessoais e supostamente insignificantes parissem almas penadas.

As reflexões do protagonistas, despidas de qualquer pudor ou julgamento, são o ponto alto da leitura. Surgem como flashes de ideias, lembranças ou culpa finalizadas com inesquecíveis repetições da palavra “câmbio”.

Patrícia Melo faz, o que poderia ironicamente se dizer, uma literatura de macho. Sem pudor de instintos ou economia de realidade. Já na capa a dica do que virá: um grande sol, sobre um mato e uma cruz cravada. Os diálogos entrelaçados numa prosa cortante tiram o fôlego do começo ao fim. O leitor está bem servido de suor e tensão.

Vale assistir ao book-trailer da obra, narrado pelo maestro John Neschling. Talvez a voz mais improvável para o personagem. Câmbio.

Juliana Simon

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