[ Randômico ] No pau-de-arara

Ler é, talvez, a única instância livre da literatura. Afinal, você escolhe o que quer ver e tem o poder de fechar o livro na hora em que quiser. Nessa linda e erudita ilha das letras, porém, se escondem as mais cruéis torturas. As letras doem.

Vamos supor que resida nas sinapses uma idéia brilhante e que esta urja (soluço parnasiano, hic hic) em ser colocada no papel. Um: o sujeito senta em frente a um bloco, computador ou máquina de escrever para os mais nostálgicos. Dois: com alguma sorte, ele pula sobre os bloqueios criativos e vomita um punhadinho de palavras. Nunca vai estar a seu gosto. Três: lê, relê, apaga, reescreve. Quatro: exausto, berra um “não tem tu, vai tu mesmo”.

Com MUITA sorte alguém vai achar os escritos coisa que preste e, traindo as estatísticas, o autor em questão não vai ter aquele fetiche pela aura “maldita” e “invendável”.

“Ah, você precisa entender que sou uma pessoa fora do meu tempo. Talvez só as próximas gerações, os ETs e os aborígenes entendam a real intenção dos meus textos, you know what I mean?”

O autor conheceu, deu, comeu ou nasceu da pessoa certa e está lá sua cria circulando por uma editora. Eles gostaram, eles o amam, eles confiam nesse novo talento lindo e cheiroso da tia!

Publicado est.

Lancemos numa livraria cool, num boteco sujo, no quintal de casa? Façamos um bom barulho para atrair uma galerinha boa, mezzo amigos, mezzo reais interessados, mezzo loucos por uma boca-livre, mezzo marias-moleskine. Feito. Temos um espaço nas estantes. Vitória.

Há algum tempo, o escritor voltaria cem casas no jogo caso os jornalões metessem o pau em seu livro. Hoje a coisa mudou de figura. Vale mais o boca-a-boca que as estrelinhas dos chatérrimos cadernos literários. O problema é que essas são afiadíssimas para dilacerar qualquer ego, mas isso é a vida, esse eterno concurso de talentos de high school americana.

Ok. Vendeu legal. Mas faz um tempo já. Cadê sua próxima obra? Você vai manter o tema, o estilo, as influências? Agora é acender vela para que a idéia brilhante da primeira vez tenha deixado ovinhos.

Sendo assim, pense muito bem antes de abrir o próximo livro. Alguém pode ter morrido ou matado para que ele esteja aí encadernadinho nas suas mãos santas-ingratas, caro algoz-leitor-salvador.

Juliana Simon

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