[ Randômico ] Bagunça

Conheci esses tempos um sujeito que separa seus livros por “utilidade”. Diz ele que em sua estante há livros para antes de dormir, para ler no ônibus, para caprichar na cantada de um “cacho” novo, até para conversar com o pai (pessoa distante, obcecada por literatura e conhecido por fazer uma chamada oral de clássicos. O último, dizem, foi com um sobrinho de 17 anos que estava lendo “Dom Casmurro” para a prova do vestibular e que, ao ser questionado pelo velho, caiu em prantos na certeza de que não alcançaria a nota de corte).

Pois bem. Já conhecedora de cor e salteado das falas de “Alta Fidelidade”, o filme (porque o livro não caiu nessas mãos até hoje), fiquei aqui pensando na melhor maneira de organizar meus livros. Não qualquer arrumação, mas uma que deixasse as estantes com um toque de minha personalidade.

Ordem alfabética, além de clichê, não é o melhor jeito de encontrar um livro na pressa. Já fiquei horas – e vi vizinhos das compras também alérgicos à ajuda em lojas – procurando um título na Livraria Cultura. Não lembrava o nome do livro, não sabia o nome do autor. Na estante de literatura brasileira, um mar de dúvidas e uma inevitável desistência. (Como os homens ao volante, há quem confunda pedir ajuda com incapacidade intelectual).

Pensei em gênero. Mas algo mais parecido com o sujeito anteriormente citado. Separaria minhas leituras em “livros que li”, “livros que não li”, “livros que li e na gostei”, “livros da vida”, “livros que devo gostar quando estiver apaixonada”, “livros que devo reler depois de ter filhos”, “livros que li pra impressionar o carinha que escrevia poemas” (caí nessa lá no começo de 2007 e assim que não consigo ler mais Mário Quintana), “livros que li forçada na faculdade/colégio”, “livros de esquerda”…e por aí vai. Mas a confusão seria tanta e as categorias acabariam se entrelaçando e eu…desisti.

Sábios são os que empilham os livros numa ordem desordenada, que ninguém conhece – nem eles mesmos. Um professor na faculdade, que andava com umas camisetas furadas e umas chinelas franciscanas, não tinha paredes e sim pilhas de livros que sustentavam o teto de sua casa. Isso é, claro, uma mentira. Mas não consigo tirar a imagem de uma casa totalmente erguida por livros. Talvez custassem muitos anos da vida para alcançar tal volume. Mas e se estivessem nessas pilhas a quantidade de livros que você quisesse ler e que, numa tarde ao pé da estante de uma livraria, pensasse que levaria mais de uma vida para conseguir.

Sendo assim que me distraio e esqueço a tal arrumação. As categorias dos meus livros são outras mais. “Os que eu deixo na cabeceira da cama e que leio antes de dormir” (“Blues”, do Robert Crumb”, nessa fase HQ que estou pós “Cachalote”, do Rafa Coutinho e do Daniel Galera), “os que eu levo debaixo do braço nos ônibus de São Paulo” (agora a biografia mal editada, mal escrita, mal traduzida do David Bowie, que só vale pela história do camaleão), “os que eu li e me apaixonei” (esses reconhecidos pelas zilhões de orelhas que faço nas páginas favoritas), “os que eu não li, mas estou me preparando para” ( “O Resto É Ruído”, do Alex Ross. Que já tentei ler, mas desisti quando percebi que não tinha ouvido nem um milésimo dos músicos citados), “os de Machado de Assis” (bruxo querido, amado, idolatrado) e “todas as outras que venham a surgir”.

Qualquer que seja a arrumação, tenho a impressão de que não será justa. Do caos das letras que temos construído a falta de sentido de ler e amar o que não se conhece, o que nem existe. Ou qualquer coisa assim.

Juliana Simon

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