[ Conto ] Perfume de colarinho (blues paulistano)

Toda segunda-feira ela vem, a mocita que desfila sua saia de pintos pelo bar, mas vem também todos os outros dias. Mas segunda é diferente, estão todos bem cuidados, preocupados e ainda estafados com o começo da semana. De alguma forma isso a inspira, esse ar empresarial, o cenho franzido e quem sabe até as alianças (mas esse é fetiche de toda mulher, dizem). Não é puta, bem se vê; não é atirada, pelo contrário, é elegante e dona de si até um certo ponto em que não perde-se dentro de um desses ternos. Tem apenas um fetiche, como temos todos. A sua maior virtude é não se calar diante dele, e entregar-se piamente aos prazeres dessa sua disfunção carno-sexual.

Ponto justo seja feito, tão curioso, é que nunca saiu com qualquer um desses homens – ao contrário de muitas de suas críticas, madames da vida – claro que todos tentam, pagam bebidas, drínques, descem a mão pela coxa – a dela na deles, sempre. Todos os sinais ali, evidentes, estampados na cara. O sortudo, precoce, avisa a mulher em casa que chegará tarde por conta de um projeto, mas o projeto nunca vira e eles sempre acabam chegando mais cedo que o esperado em casa para assaltar suas esposas na cama com um projeto pessoal dessas. Já ela, com sua saia de pintos também acaba a noite sempre se masturbando. Entra com tantos mil paus na saia e sai dali com os mesmos pintos do quadril para baixo, mas nenhum entre as pernas.

E todos desacreditam, pois está claro que ela gosta, e está claro que todos querem. Ainda assim. Ela não sai do bar com um pinto a mais que seja. As más línguas dizem que é das mulheres que ela gosta, mas são somente as línguas ferinas das madames que, desgostosas de suas críticas iniciais pouco operarem efeito sobre o desejo dos homens, só fazem crer que são elas o objeto de desejo – tontas que são. Mas o motivo real fiquei sabendo somente depois de quatro ou cinco noites entrando e saindo sozinha; um desses colegas desiludidos, que já havia passado pelo estágio do flerte, do drínque, da mão na coxa e até uma assinadinha na bundinha redonda, confessou-me que lhe faltava somente o essencial: o perfume certo no colarinho. Papinho, besteira, pensei. Esse mesmo amigo encheu das suas nesse dia de confissão e como tantas outras, fiz a vez do pároco.

Ela sempre bebia o mesmo: tequila. Pouco, não muito. Nunca saiu carregada no vexame, ser um alvo fácil não faz seu tipo e nem teria a mesma graça se não tivesse de puxar a gravata como num filme do Tarantino. O que vale é seduzir um homem preocupado com tabelas, dados e números – confesse que nem é tão difícil, talvez por isso ela se faça de tão difícil, dada a facilidade de sua tarefa. Só vale quando ela desata o nó da gravata enquanto rebola-goza em cima deles.

Hoje está aqui, como sempre. Como se nada tivesse acontecido. Ontem, por exemplo, ofereci tequila, como tantos outros e como todos os outros ela aceitou, como todo o sempre. Tarde naquela noite, surpreendeu-me deixando o banheiro e me arrastou de volta para dentro só pra dar por uns vinte minutos: ela segurando os gemidos baixos, menos preocupada em ser ouvida e mais safada em parecer preocupada, trepando gostoso encostada na porta do banheiro, de costas, um quatro à improvisada. Abaixou apenas a saia de pintos e largou a meia das pernas. Salivou aspirando meu colarinho que eu só percebi possuir naquele instante e somente naquele dia por circunstâncias diversas (uma entrevista cedo da tarde). Ali, perguntei o que eu tinha feito de certo para que desse para mim e não para todos os outros, bobos os homens. Ao que ela suspirou ‘perfume’ no pé do meu ouvido, de ré, mal se virando, incapaz de largar o pau entre as bandas. Sorri, pois o perfume sempre fora o certo: a tequila no avental; me faltava apenas o substancial: o colarinho.

Bruno Portella

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