[ Conto ] João Bona Fonte

Tem certeza que é esse o endereço? É esse mesmo, disse o velho, através dos óculos. Deixa eu ver de novo, Rua Samuel Scott 1447. Isso daqui é um-nove-nove-sete ou é… Não é nove, é quatro, 1447, repete o velho. Ah, desculpa, é que parece, né? Sim, pode pegar esse ônibus que cai lá, eu também vou pegar esse daí. Puta merda, o que esse velho vai fazer na minha casa? O senhor vai visitar alguém? Negócios, respondeu o velho, desconfiado. Estranho, estranho pra porra. Era só o que me faltava, eu fugindo dos hómi e o cara chega perguntando onde fica o endereço que dá na minha casa. Até o número é igual, não é possível. Melhor subir no ônibus para não criar suspeita. Pode se apoiar em mim, senhor. Opa, grunhiu o velho, pegando a bengala numa mão e meu ombro noutra. Se eu tenho 25 centavos? Ah, tenho. Aqui… mas o senhor não paga ônibus, paga? Não sou tão velho assim, meu filho, retrucou. Achei, uma moeda de um real para o senhor. Imagina, pode ficar. Vou passar essa catraca e sentar lá no fundo, para não perder de vista esse sacana. Licença, Dona. Por que todo ônibus lotado tem que ter uma gordona espatifada no fundo? E ainda fica com essas sacolas, deve ser muambeira. Com esse cheiro de suor não vai dar para pensar, sua gorda de merda. Que horas são, por favor, pergunta a mulher. Cinco e meia da tarde. Vai sair no próximo ponto, Dona? Não, é que eu não quero perder a novela, explica, rindo. Obrigado, agradece a gorda. Melhor descer do ônibus, ou pelo menos tentar espiar o velho. Será que ele tá olhando pra janela ou tentando dar uma viradinha pra me ver? Se bem que…como um senhor desse, vestido de xadrez, com bengala e tudo, vai me prender? Deve ser engano o tal endereço do velho. Deve ser gagá, é, relaxa. Dá uma apalpada na coxa dessa gorda do seu lado e relaxa. Pois é, faz tempo que você não pega uma, não é mesmo? No estado que eu tô comeria essa daqui e ainda lambia os dedos. Com esse ônibus balançando dá até para esfregar os cotovelos nos peitão dela, ó. Deixou a sacola cair, é? Eu pego, pode deixar, Dona. Imagina, obrigado, respondeu. Isso, agora dou a sacola de plástico e puxo a mão dela para minha perna. Que isso, moço, pergunta ela. Desculpa, foi o tranco. Gorda safada, quero te fuder nesse ônibus em movimento e esporrear na sua barriga. Êpa, chegou no meu ponto, agora é a hora boa. Vou aproveitar para dar uma bela esfregada de benga na cara dela, quando for levantar. Preciso dar uma ajeitada no troço, tá muito duro, réréré. Olha, ela tá fazendo cara de safada. Sabia, sabia, que gorda safada! Boa tarde, moço, disse ela. Até mais, dona. Boa novela, héin. Devia ter chamado para ir lá pra casa, ia dar umas quicadas na minha cama, gordinha gostosa, viu. Puta que me pariu, olha lá o velho no portão de casa. Puxa, já tinha esquecido do velho. Ele tá com um celular na mão, cacete. Melhor cair fora, onde já se viu velho usar celular com tanta habilidade, deve ser polícia disfarçado. Vou dar uma volta no quarteirão, uma embaçada, ou então posso falar com o Klébinho e entrar por detrás da casa dele, que dá nos fundos da minha. Aí, Klébinho, qual é que é? Fala, Alemão, como cê tá, perguntou Klébinho. Então, cara, cabreiro, sabe? Cabreiríssimo.Tem um gambé lá na porta da minha casa, e é o seguinte, preciso de uma mãozinha. Já te disse que tô fora desses esquemas, não vem fuder pro meu lado, comentou. Aí, irmão, não precisa se envolver em nada, não, que eu só quero pular os fundos da sua casa pra entrar na minha. Esse Klébinho é um veado mesmo. Minha patroa vai encher o saco, ela não agüenta mais te ver zanzando por lá, já disse para não ficar me colocando nessas bosta, explicou. É assim, irmão? Não vai deixar eu pular a porra do seu muro, Klébinho? Vai rápido, vai, pediu, Klébinho. Passei pela sala rapidão, mas deu para ver a bunda virada para o teto da mulher do Klébinho, deitada no sofá, vendo a novela. Eita mulherão! E dá feito louca pra todo mundo, só não deu pra mim, essa boazuda. Muro é meio foda de subir, faz tempo que eu não faço isso. Ainda mais fora de forma, devia ter chamado a gordinha para transar comigo, meter faz o maior bem. Até o doutor lá do Fantástico disse que trepar emagrece àbeça. Aí, agora foi. Tão batendo na porta. Já deve ter pulado o portão da frente. Esse polícia de tocaia, ele vai tomar no cu dele. Pronto, é só pegar a uinxéster na gaveta e, legal, legal. Tá carregada, e a menina fura que é uma beleza. Se o delegado aí vier pra cima de mim vai levar chumbo. Ele tá batendo forte na porta, deve ter gente fazendo reforço atrás, dois ou três, no mínimo. Policial adora uma covardia. Mas agora eles vão ver com quantos paus se faz a canoa, réréré, que eu vou abrir e mandar uns pipoco nesses filhos dumas puta. É só contar até três, abrir a porta e dar neles, em todos eles. Isso aí, lá vou eu. Um, dois, três. Pá, pá, pá. Toma, seu polícia cuzão. Rárárá. A melhor parte é ver os furos esguichando sangue. Olha lá, que boniteza. Melhor puxar o corpo pra dentro antes que cheguem os colegas dele. Devem ter ido na outra rua pegar o Klébinho, deixa eu ver. É, não tem ninguém na minha calçada. Foda-se, é fechar a porta e o Klébinho que se vire. Vou direto na carteira do sacana, oba, deve ter grana. Seu filho da, resmungou o velho, morrendo. Pá. Na cabeça, já era. Agora, a carteira. Não é assalto, não. Emprestei e agora eu quero de volta, réréré. Tem RG, deve ter cartão de polícia. Não, é só RG mesmo. José… José? Pô. Sobrenome de Silvano Pontes? Tsk, não. Quê que isso, minha virgemaria. Só fui conhecer meu pai agora, e já abri a cabeça do véio. Cacete, te amo, pai. Aí, paizinho, te amo, viu?

Ana Majorca

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