Dia de Princesa

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Netinho de Paula se orgulha da Cohab, frequentemente posa de arauto ou defensor dos negros e dos menos favorecidos da periferia.

A premissa parece ótima e o figurão sorridente do extinto Negritude Júnior até tem sua popularidade com o povão, seu público. Mesmo seus constantes ataques de humor inconstante (ex-mulheres apanhando, fãs tomando pandeiradas, repórteres recebendo socos e por aí afora) não parecem manchar a percepção carismática que as donas de casa têm dele.

Caso é que seu principal quadro, a saber: ‘Dia de Princesa’, tem feito sucesso durante um bom tempo na TV brasileira, seja lá em que canal for; atualmente, distribuído pelas antenas do SBT de Silvio Santos.

O quadro escolhe entre milhares de inscritas, aquela que tem uma boa história pra preencher mais de 40 minutos de quadro (leia-se: dramática), decididamente fora dos padrões de beleza (notoriamente seguido à risca pela produção do programa), geralmente negra (não é regra) e sempre simples e humilde. A ideia é repaginar a mulher por completo e fazer um banho de loja em sua própria casa.

O problema não reside em nenhum desses itens; não sou contra ajudar aqueles com histórias dramáticas, nem contra repaginar os feios ou tirar das lojas e dar aos pobres, como um Robin Hood capitalista. Não.

Netinho e seus capangas vão buscar a ‘princesa’ de terno, limosine e até chofer de luvas brancas. Figuras eternizadas pelo glamour aristocrata branco e hollywoodiano. A repaginada visual resume-se a tentar tornar a ‘princesa’ do domingo o mais modelo-branca possível. Alisa-se cabelo, tinge-se de loiro em alguns casos, compra-se roupas da moda e enfeitam como se fosse uma boneca. No domingo, ela fica linda (opinião deles).

Ora, se ele é o arauto dos negros, transformar suas ‘princesas’ humildes em Barbies ou mesmo se apresentar como um lorde britânico à suas casas não ajuda muito na constante busca de identidade dos negros em um país em que são absoluta maioria. Nah, Netinho está dizendo a elas: tenham os cabelos lisos e olhos claros, quando a própria natureza negra insiste em outro tipo de beleza.

Ora, se ele se orgulha da periferia e se proclama defensor dos menos favorecidos, como pode ajudar se continua dizendo: tenham choferes, limosines e tomem champagne aos domingos, quando a própria situação delas luta com forças pra ter itens básicos da sobrevivência.

Netinho, sem perceber, incorporou em si o pensamento do que é bom: o glamour dos filmes. E está perpetuando isso em rede nacional para o público mais sensível à influência da mídia e das figuras públicas. E perde a grande chance de elogiar sua tão orgulhosa descendência afro.

Ora, Netinho.

‘Não faz assim’.

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6 Respostas para “Dia de Princesa

  1. Maravilha Bruno, é isso mesmo! Como disse Jean Baudrillard: Vivemos neste hiperrealismo midiático, onde toda a realidade é programada de acordo com as necessidades dos investidores, alguns têm consciência disso e vivem um verdadeiro malabarismo para fugir desse real ilusório, mas a maioria aceita-o de bom grado se entupindo de todos os artificialismos achando que faz parte desse circo, mas são os “bonecos” da vez, imediatamente substituídos por outros e assim por diante e isto não se restringe apenas a pobres e negros, ás vezes percebo que isto é mais intenso entre os bem nascidos e estudados. O Netinho não não tem a mínima noção do que seja identidade, tampouco ancestralidade e usa a periferia em prol de sua já elevada conta bancária. A questão do alisamento do cabelo poderia ser mais uma opção à questão da vaidade feminina, mas já ultrapassou este ponto, hoje o alisamento é mais um artifício para tentar driblar a exclusão, mas acaba cedendo e aceitando o princípio preconceituoso de que o cabelo bom é o liso, deixando de afirmar sua raça e identidade como valores realmente cruciais para uma existência digna de todo o valor que raça negra tem.
    Desculpe pelo longo comentário, mas não resisti.
    Um abraço.

  2. Eu até me sinto ofendida, quando leio comentários preconceituosos.
    Tem gente que acha que seus estudos o qualificam para julgar os que tem opinião diversa da sua. Pela sua falta de humildade, afirmo que não é assim que se faz.
    Tenho um bom grau de formação, não pertenço à classe considerada baixa, convivo com pessoas de vários níveis de estudo, situação financeira e política. Nem por isso me considero melhor ou pior que qualquer um deles e lamento por quem o faz e ainda fica tentando prejudicar.
    Acho que as pessoas podem ser negras e alisar os cabelos ou brancas e frisar; que podem vestir-se como a Barbie ou como a Janis Joplin, comer churrasco ou caviar, etc., desde que isso as faça realizadas. Não são robôs e sabem por que estão ali. Ser feliz é o que todos querem, sejam gente simples ou metida a besta.
    É claro que pessoas famosas e empresários investem para ganhar bem – estão certos eles – é o que todos nós faríamos , ou então fiquemos em casa quietinhos.
    Admiro o trabalho do dia de Princesa e todos os outros que beneficiam pessoas que precisam. A parte material é a primeira e vem acrescida de outras soluções, como realizar algum sonho ou recuperar um drogado, por exemplo. Uma parte sem a outra seria de valor duvidoso.
    Ninguém é o idiota que os intelectuais que se acham tão sábios rotulam.
    E eu prefiro ver na tv alguém ajudando aos oprimidos do que ficar numa reunião qualquer de grupo político ou no clube maquinando um jeito de derrubar os outros.
    Rever nossos valores de vez em quando é fundamental.

  3. É Bruno, é muito bom quando um texto causa estragos!
    Na verdade seu texto ataca justamente o preconceito que a senhora Ana Maria se diz sentir ofendida. Seu texto mostra até que ponto e essa sociedade movida pelo espetáculo pode chegar para obter os resultados exigidos pelos donos da “informação enlatada”. Na verdade aquelas pessoas não significam nada para o Netinho, tampouco para qualquer canal de tv, a única intenção é utilizar todas aquelas pessoas em prol da audiência, que para o anunciante, vale dinheiro. Quanto mais gente assistindo quem forneceu os “presentes” da princesa, mais espectadores (clientes) com o nome da empresa na cabeça. Agora me diz uma coisa: Por que uma princesa (no sentido de “valor” humano tem que estar arrumada, com o cabelo liso, fazer compra em Shoppings e chegar de Limousine. Isto é o ápice do espetáculo e da humilhação, pois mostra que a sua vida não significa nada, que a vida de princesa é uma vida digna. Após o óbvio, vamos para questões mais cruciais. Quando os negros foram arrancados da África para se tornarem meros objetos de troca e comércio, os Dominicanos e os Jesuitas foram os que mais se destinguiram no trafico de escravos africanos. A Companhia de Jesus, por exemplo, possuía navios exclusivamente destinados ao comércio de escravos angolanos para o Brasil. Começa por aí, a própria igreja lucrava com o tráfico de escravos e é desta forma ainda hoje, só que não é somente a igreja que lucra com a miséria e sofrimento de muita gente. Para Guy Déborde “o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real. Têm de olhar para outros (estrelas, homens políticos etc.) que vivem em seu lugar. A realidade torna-se uma imagem, e as imagens tornam-se realidade; a unidade que falta à vida, recupera-se no plano da imagem. Enquanto a primeira fase do domínio da economia sobre a vida caracterizava-se pela notória degradação do ser em ter, no espetáculo chegou-se ao reinado soberano do aparecer. As relações entre os homens já não são mediadas apenas pelas coisas, como no fetichismo da mercadoria de que Marx falou, mas diretamente pelas imagens.” Com relação às pessoas serem o que são: patricinhas, barbies, pittboys, intelectuais metidos, funkeiros …isto é uma questão de escolha pessoal, inclusive ficar à frente da tv o dia todo engolindo a pílula mágica da felicidade. Ah, a felicidade! Ela se tornou uma palavra obrigatória na nossa sociedade. Será que foi por isso que quadruplicou a venda de antidepressivos. A felicidade é uma coisa muito boa, assim como também são bons e necessários, outros aspectos que compõe o ser ontologicamente. Um poema do Mário Quintana: “Se a vida fosse só felicidade, felicidade de verdade! Jamais saberia o que realmente é felicidade”
    Segundo o filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky, a sociedade entrou numa nova era (de hiperconsumo) e num novo tempo (hipermoderno). Uma das consequências desta “evolução” traduz-se no que ele chama a “felicidade paradoxal”. Esta reside, basicamente, no seguinte: nunca foi tão grande e tão alargada a exaltação da melhoria contínua das condições de vida, ao mesmo tempo que o indivíduo contemporâneo jamais atingiu um tal grau de “desamparo”.
    É como se a “exigência de felicidade” (a todo o preço) acabasse por se revirar, paradoxalmente, no seu avesso: a in-felicidade. O imperativo que nos diz, a cada momento, “sê feliz”, não nos deixa gozar em paz a felicidade, visto que transforma rapidamente toda a possível “felicidade” em infelicidade. Num tempo em que parece ser pecado ser infeliz – tal é a religião sem Deus que nos domina – somos todos infelizes.

    Nossos valores não devem ser revistos de vez em quando, mas sim diariamente e continuamente, pois tudo é dialética e só assim podemos atender determinadas coisas que não nos querem deixar viver, mas sim conduzir nossa vida ao gosto($) deles.

  4. Vc tá sendo cartesiano e irascível . Pedindo a quem não tem (e nunca teve) acesso a bens materiais, culturais e sociais pra escolher: ou bem vc é da perifa ou bem vc é playboy. É quase uma ode à segregação.

    Só pq o cara é negro ele tem que usar black power? A propósito, e se ele usar black power ele não pode, sei lá, andar numa limosine?

    A gente pode transitar livremente pela cultura deles, ouvir rap, fingir que somos maloqueiros no jogo do curíntia etc, mas eles não podem alisar o cabelo?

    Ah, por favor, vê se avisa o Chambourcy que tem danone à vontade…

    [ Comentário do blogueiro: Concordo. Mas o texto não critica quem recebe e sim quem está dando. Mas atenção na próxima, Ana. ]

  5. Sou da periferia, filho de negro e trabalho voluntariamente num projeto social que trabalha com a questão da identidade e inserção do negro nessa sociedade onde são 50% da população e não quase não têm acesso à quase nada, nove anos de trabalho e de portas fechadas porque não fazemos espetáculos, mas sim trabalhar com a identidade e auto estima de um povo massacrado, que não tem sequer dinheiro para ir pegar ônibus para ir num show de graça no itaú cultural. No nosso projeta têm meninas lindas que alisam o cabelo, nunca as critiquei por isso, mas sabem o que eu penso à respeito, porque a maioria não alisa por ter uma opçao a mais, mas devido ao racismo imposto sobre todas as questões relativas à raça. A maioria dos alunos do nosso projeto são negros e são os pais destes que na maioria estão desempregados. Trabalhamos com a diversidade e o preconceito, pois sabemos que são questões caras à construção da identidade, mas queremos construir uma diversidade consciente, não meros bonecos fashion, que seguem tendências novas e descartáveis a cada verão, pois sabemos que lá na frente nenhum cabelo liso vai ajudar a conseguir preencher a tão sonhada vaga de trabalho, pois todos sabem quando e como o preconceito pesa. Trabalho numa empresa com 45 funcionários e o único afro descendente sou eu, isso para uma população que tem 50% de negros não é estranho, o óbvio não seria ter a metade de negros trabalhando neste local. Não sou irascível, nem cartesiano, participo de um projeto social há nove anos para que essas pessoas tenham acesso a informação e possam fazer escolhas e não serem comandados por iogurtes.

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