Dividir as coisas boas

Doritos

Se a AlmapBBDO de Marcelo Serpa tenta nos fazer sambar de um lado, de outro educa os jovens a reconhecer certos modelos de comportamento que são pra lá de idiotas.

Na nova campanha da Doritos, o salgadinho à lá nachos mexicanos, a agência encontra um bom conceito para sua comunicação: se for pra dividir algo com seus amigos, divida um Doritos, aludindo às coisas patéticas que fazemos em turma.

O primeiro filme, Madonna e gás hélio, é fun e vale-se apenas da cena ridícula de um rapaz cantando uma música com a voz alterada. É ótima, mas a campanha melhora quando adiciona o elemento educativo nos seus filmes sem perder o humor ou, pior, se tornando piegas como comumente acontece com campanhas que tentam educar. 

Ao colocar uma garota passando ridículo em uma escada rolante por causa de um famoso qualquer, sem querer Doritos nos alerta sobre a vazia idolatria que acomete, principalmente, os jovens. Ou, ainda melhor, quando coloca um dos amigos da galera chegando com um carro tunado tocando eletrônica no som máximo, sem querer nos alerta sobre a vazia egolatria que acomete o mesmo público. 

A cena é emblemática: está um grupo conversando em uma factual demonstração coletiva, mas quando o amigo chega, é como se ele buscasse com que todas as atenções do grupo se focassem nele – notem sua expressão corporal cumprimentando um a um.

É esse tipo de comercial que me faz ter tesão pela publicidade: seu poder de educação que ela tem, pois sim, ao contrário do que Guanaes acha (ou achava, sei lá), a publicidade tem uma parcela grande em perpetuar certos valores que cada vez mais desalinham a sociedade. Mas também, se quiser, tem uma importância social de extrema relevância e a Almap mostra aqui como fazer boa publicidade aliada à uma preocupação social básica – se pensando nisso ou não, não importa, fato é que está lá. Escancarado.

Curioso ver que, de um lado a Havaianas quer que sambemos na frente dos problemas, e de outro o Doritos nos faz ver quão ridículo é a idolatria – seja por outrém, ou seja por nós mesmos.

Deveria aliviar o fato de que, embora todo mundo use, as Havaianas não tem um foco tão jovem quanto o Doritos – e quando falamos de jovens, estamos falando nos futuros formadores de opinião. 

Torcemos pra que eles dividam um Doritos ao invés de sair sambando pros problemas.

Bruno Portella

Criados por André Godoi, André Gola, Ary Nogueira, Marco Aurélio Giannelli (Pernil), Marco Monteiro. Os filmes foram dirigidos por 2 da Sentimental Filme

Adendo: Após a feitura do texto, vi o contestado filme YMCA da campanha que, inclusive, foi tirado do ar pelo CONAR. É a maçã podre dos filmes da Doritos – e a ABGLT tem toda razão de encher o saco por uma demonstração barata e gratuita de que dançar Village People é ridículo. Digo isso nem pela discriminação de homossexuais, não, mas é um absurdo achar ridículo YMCA. Sou hétero e digo desde já, é a melhor música de pista que já fizeram. O problema é que a Almap curte samba, pessoas. 

Agradecimentos à Leticia Martines, pelo toque.

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2 Respostas para “Dividir as coisas boas

  1. Pingback: Propaganda e o crivo social « Ovo Cesariano·

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