Dancemos ao som de Havaianas

Havaianas

Em seu novo comercial, a marca de chinelos ignora a crise econômica da forma mais brasileira possível: uma roda de samba. Uma mulher indignada interrompe a cantoria e argumenta: “Estamos no meio de uma crise e vocês aí, se divertindo?”. Um segundo de silêncio pela consciência nacional; que tristeza, comenta Marcos Palmeira. E então puxam “Tristeza” de Niltinho e Haroldo Lobo (Tristeza / Por favor vai embora / A minha alma que chora / Está vendo o meu fim) mudando completamente a situação para uma alegre cantoria -enquanto a insuportável pedante vai embora contrariada.

À primeira vista: legal. Rir dos problemas é uma dádiva do brasileiro. Fazemos piada do imponderável, sabemos lidar como ninguém com qualquer tipo de crise e somos pentacampeões. Porra, até eu quero estar na roda. O difícil é notar onde fica a divisória entre a virtude elogiável do brasileiro e a alienação crítica da qual o povo é cativo.

A Almap BBDO, dona da criança, adora os tons tupiniquins nas suas campanhas de Havaianas, ora em cores quentes nos impressos, ora nas paisagens bunda-praianas de outros comerciais. Até na rivalidade Brasil-Argentina ela se apoiou pra vender os chinelos. Agora, longe demais, elogiou a dormência brasileira: sambemos todos.

Não, o tapa na cara não é pela crise – muito menor que o tufão europeu/americano e longe de ser a marolinha nacional, tá mais pra sete ondinhas de fim de ano, diga-se. A menina, concordo, é insuportável e eu seria o primeiro a puxar o samba se me aparece uma dessas no bar. O duro é constatar que qualquer outro argumento teria o mesmo efeito – desigualdade social, corrupção, fome, manipulação midiática; tudo ia dar em samba. E de forma gratuita, já que o filme não vende o chinelo, e sim a capacidade de rejeitar problemas.

Se somos um povo ainda vítima de um sistema educacional que é um verdadeiro criadouro de gado, incapaz de produzir seres humanos hábeis de qualquer análise crítica, elogiar o comportamento pão e circo – secular na construção do tupiniquim moderno – só mantém o paradigma de brasileiro cordial e manso.

Antes o samba era sambado para criticar veladamente o sistema ditatorial, em um esforço corajoso por mudanças; hoje, a Almap vê por bom tom sambar para que se mantenham os alicerces de um povo tonto. Chora cavaco!

A desculpa, antevendo, para justificar peças como essas: quebrar os paradigmas da atual caretice da publicidade. Deu certo, estilhaçou o politicamente correto, mas cravou o socialmente trágico.

E, já que ‘todo mundo usa’, resta torcer pra que nem ‘todo mundo sambe’.

Bruno Portella

Ficha Técnica – Filme:

Anunciante: São Paulo Alpargatas
Título: Roda de Samba
Produto: Havaianas
Diretor de Criação: Marcello Serpa
Criação: Rynaldo Gondim e André Nassar
Produtora: Cine
Direção: Clovis Mello 
Fotografia: Adrian Teijido
Rtvc: Egisto Betti
Trilha / Locutor: Play it again
Montador / Editor: João Branco, Clovis Mello
Finalizadora: Digital 21
Atendimento: André Furlanetto, Cristina Chacon, Marina Fernandes, Karine Vilas Boas
Planejamento: Cintia Gonçalves, Sabrina Guzzon, Amanda Thomaz
Mídia: Carla Durighetto, Camila Bertoli, Patrícia Oliveira

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7 Respostas para “Dancemos ao som de Havaianas

  1. ótima análise!
    O que mais me irrita nesse comercial é o conteúdo ‘auto-ajuda’, dizendo que devemos ser felizes sempre, conteúdo que sempre aparece quando se fala de Brasil. É como se brasileiros não pudessem se preocupar com crise, não pudessem sentir tristeza, devem estar sempre alegres, porque tudo é samba no país tropical.
    mas é isso aí, parabéns pelo blog!

  2. Tem até aquela música de Chico que zomba do descaso do brasileiro com os problemas do mundo, de que nós esquecemos pulando carnaval. Ou aquela outra que diz que esquecemos de tudo vendo futebol. Verdade. Será um defeito ou uma virtude, a habilidade de zombar de tudo, de afogar as preocupações numa roda de samba? Eu chamo de defeito e é por isso que o país está esse nó de marinheiro.

    Mas que o comercial é ótimo, isso é! =P

  3. Ótima análise mesmo.
    Sempre quando vemos algo de passagem, como um comercial, captamos a idéia principal que aqueles poucos minutos nos proporcionam.
    Claro, 99% das pessoas que assitem algo não vão ligar para o verdadeiro significado da coisa.
    Apesar de não concordar inteiramente com a idéia de que tudo tem uma mensagem subliminar, como diz uma amiga minha, esta propaganda basicamente teria uma, e foi o que você retratou em seu post.
    E é óbvio que vai ter pessoas que vão distorcer e contrariar sua publicação, mas aposto que muitas pessoas vão concordar assim como eu e ambos os comentários acima.

  4. Pingback: Dividir as coisas boas « Quebre o ovo·

  5. Pingback: Propaganda e o crivo social « Ovo Cesariano·

  6. Quando esse nefasto anúncio (que padece até mesmo de falta de criatividade) passou na tevê lamentei o desserviço que acaba prestando…

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